Minha previsão se confirmou. Os jornais de centro-esquerda atribuíram a vitória no debate de ontem a Zapatero e os de direita a Rajoy. Ou seja, cada um interpretou como quis. Confiram o que deu nas bancas hoje:
El País - Zapatero ganha por margem mínima - O jornal mostra uma pesquisa de opinião que dá a vitória ao candidato do PSOE por quatro votos percentuais, mas admite que ele passou apuros.
Público - Agressividade faz Rajoy se perder - O jornal mostra outra pesquisa que dá a vitória a Zapatero por 15 (!) pontos percentuais.
El Mundo - Um Rajoy sempre no ataque obriga Zapatero a se apoiar no passado - Com direito a editorial "Um convincente Rajoy põe em apertos um firme Zapatero"
ABC - Rajoy encurrala Zapatero nos temas educação, imigração, preços e ETA - O jornal não apresenta pesquisas e tem um editorial com chamada na primeira página e o título "Rajoy se impõe"
La Razón - Rajoy encurrala Zapatero
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Alternativas
Para não pensarem que a eleição na Espanha é uma disputa apenas entre o PP e o PSOE: hoje, a caminho da faculdade, vi um trio elétrico distribuindo folhetos com propaganda do nanico Partido da Cidadania. Esta aí ao lado é a marca do partido. A princípio pensei que se tratava de uma publicidade de complexo de vitamina C. Eu tinha razão ou não?
O primeiro cara-a-cara entre os candidatos


O formato
Terminou agora há pouco o primeiro debate na televisão entre os candidatos Mariano Rajoy, do PP, e José Luis Rodríguez Zapatero, do PSOE. O formato é bem diferente dos debates a que estamos acostumados a ver na TV Globo. Era um cara-a-cara entre os dois candidatos com um mediador que intervinha muito pouco. Houve uma mensagem de apresentação de cada candidato, quatro blocos com assuntos específicos, um bloco livre e uma mensagem final. Por sorteio, Rajoy abria os blocos e Zapatero encerrava, o que lhe conferiu uma certa vantagem. Na próxima segunda-feira será ao contrário.
Apesar do formato "quadrado", com planos e contra-planos fechados nos rostos dos candidatos, a minha modesta opinião é de que o debate foi muito mais interessante do que no Brasil - ajudado pelo fato de haver apenas dois candidatos, o que nas eleições brasileiras só é possível no segundo turno.
Os candidatos tinham mais liberdade do que nos debates no Brasil e houve momentos em que um interrompia o outro, dando a impressão de que realmente se tratava de um "debate". O mediador interrompia apenas quando já se tornava impossível ouvir o que o candidato da vez estava expondo e não havia aquele irritante reloginho no canto da tela marcando o tempo de cada candidato, o que faz o debate parecer uma partida de futebol.
Impressão geral
Na minha modesta opinião, Zapatero se saiu melhor. Certamente ele tem retórica mais forte do que Rajoy. Na mensagem final, isso ficou claro. O candidato socialista falou olhando para a câmera, como se estivesse conversando com o espectador. Quase não se notava que ele de vez em quando abaixava os olhos para ler o texto. Rajoy, ao contrário, perdeu alguns segundos - mais de um minuto talvez - tentando encontrar a câmera. Tinha o olhar perdido, baixava os olhos freqüentemente para ler o texto e às vezes parecia estar procurando alguém por trás das câmeras.
Apesar disso, em muitos momentos Rajoy conseguiu complicar Zapatero durante as discussões. Minha opinião é que o candidato do PSOE teve melhor desempenho. Vamos ver o que dirá a imprensa escrita amanhã, apesar de que eu já posso adivinhar: El País e o Público dirão que Zapatero deu um show e o ABC e La Razón exaltarão o desempenho de Rajoy. El Mundo dirá, nas entrelinhas, que o candidato do PP se saiu melhor. A conferir.
Estúdio onde foi realizado o debate: "quadradão"Estes foram os principais pontos do debate:
Economia e emprego
A discussão sobre economia foi uma guerra de números. Zapatero apresentou dados de como a Espanha cresceu nos últimos quatro anos e sobre a tendência de crescimento para 2008, enquanto Rajoy afirmou categoricamente que há uma crise na economia do país. Crise esta que Zapatero chegou a admitir, culpando a recessão mundial. No entanto, bateu na tecla de que na última legislatura foram criados três milhões de empregos. Rajoy quis dar a impressão de estar falando para o trabalhador espanhol médio, criticou a postura do adversário de citar dados macroeconômicos e destacou o aumento no preço dos alimentos. Eu diria que houve empate neste bloco.
Política social
Rajoy tentou centrar o bloco na discussão sobre a imigração. Citou dados impressionantes: em 2007 a Espanha recebeu mais de 700 mil estrangeiros, número superior a França, Alemanha e Reino Unido somados. Foi o segundo país do mundo que mais recebeu imigrantes, perdendo apenas para os Estados Unidos. Falou em "avalanche" de estrangeiros e defendeu a idéia de exigir dos imigrantes a assinatura de um contrato no qual se comprometeriam a tentar integrar-se à sociedade espanhola.
Neste bloco Zapatero adotou uma estratégia inteligente. De início, fugiu do assunto da imigração. Enquanto Rajoy dizia que os espanhóis estão perdendo vagas nas escolas e hospitais para estrangeiros e tentava associar imigração a delinqüência - com dados como o de que 34% da população carcerária da Espanha hoje é estrangeira -, Zapatero se centrava em apresentar as conquistas sociais do seu mandato. Só nas suas últimas intervenções o candidato socialista respondeu às questões sobre imigração: lembrou dos acordos entre sindicatos e patrões para a legalização de 700 mil imigrantes ilegais, destacou o aumento da ajuda para desenvolvimento dos países mais pobres e por fim criticou o contrato de integração de Rajoy. Disse que ele transforma os estrangeiros em "delinqüentes em potencial".
Quando Rajoy desistiu de falar de imigração para apresentar sua política social, já não havia mais tempo. Ponto para Zapatero.
Política exterior e de segurança
Como era de se esperar, a discussão deste bloco girou em torno da ETA. De política exterior mesmo quase não se falou. Rajoy insistiu no fracasso da negociação do governo do PSOE com o grupo radical basco, enquanto Zapatero criticava a resposta da administração do PP - que governou de 1996 a 2004 - aos atentados de 11 de março de 2004 em Madri.
Rajoy lembrou, em tom de acusação, que Zapatero foi o primeiro presidente de governo espanhol que teve a "imprudência" de negociar com um "grupo terrorista" e mostrou declarações contraditórias de Zapatero em relação à questão basca. Acusou o atual presidente de governo de incentivar os nacionalistas bascos, negociando com a ETA e seu braço político, o Batasuna, e reconhecendo no início de seu mandato partidos como a Aliança Nacional Basca (ANV) e o Partido Comunista das Terras Bascas (PCTV), que este ano, às vésperas da eleição, foram ilegalizados pelo governo. "A ilegalização foi um ato de oportunismo político", afirmou Rajoy, acusando Zapatero também de ter "ressuscitado" a ETA, que em 2004 estava inativa há mais de um ano.
O candidato socialista retrucou com inteligência. "Mas não foram vocês do PP que disseram que a ETA foi a responsável pelo 11 de Março? Como então eles estavam mortos na época?", perguntou Zapatero, remetendo às últimas eleições, quando o governo de José María Aznar tentou convencer a opinião pública de que a ETA havia sido responsável pelos atentados e não os terroristas islâmicos.
No assunto "segurança" Zapatero ainda desqualificou as críticas de Rajoy à sua negociação com a ETA lembrando que no governo de Aznar o terrorismo fez 238 vítimas na Espanha - 46 assinados pela ETA e 192 no 11 de Março - enquanto nos últimos quatro anos morreram quatro pessoas vítimas do terror, todas no atentado ao aeroporto de Madri, em 2006.
Atentado no terminal 4 do aeroporto de Madri: ETA dominou o debate no bloco de política exterior e segurançaO pouco que se falou de política exterior foi o momento em que Zapatero mais se sentiu à vontade, até porque este assunto é um grande trunfo do governo do PSOE, que assumiu interrompendo o impopular apoio espanhol aos Estados Unidos na Guerra do Iraque.
Política institucional
O assunto que dominou este bloco foi a complicada discussão sobre os estatutos das comunidades autônomas na Espanha. Desde o fim da ditadura de Franco, no final dos anos de 1970, a Espanha discute como deve ser seu modelo de Estado. Nos últimos quatro anos, várias destas comunidades - o equivalente aos estados no Brasil - reformaram seus estatutos de autonomia. A do País Basco foi rechaçada por PSOE e PP. Outras foram aprovadas por ambos os partidos. Mas o grande dilema foi o Estatuto da Catalunha, que sofreu um grande número de contestações no Tribunal Constitucional.
Rajoy acusou o PSOE de fomentar a discórdia nacional com o apoio ao estatuto catalão e citou declarações de espanhóis influentes afirmando que o Estado está se fragmentando. Zapatero respondeu insinuando que o PP está promovendo uma perseguição à Catalunha, comunidade onde a popularidade do partido é baixa. No fundo, o pomo da discórdia entre as comunidades é o uso da água, recurso raro na Espanha, principalmente na costa mediterrânea. As comunidades que possuem as maiores reservas tentam limitar a cessão às regiões vizinhas e, se possível, registrar esses limites em seus estatutos.
Último bloco
Na hora de falar sobre temas livres, Rajoy teve seu melhor desempenho. Começou atacando a política de habitação do governo do PSOE, que criou um ministério para o assunto, mas - segundo o candidato do PP - pouco fez para melhorar o acesso dos espanhóis à habitação. Rajoy começou lembrando que na Espanha os aluguéis são mais caros que na Holanda, apesar de a densidade demográfica espanhola ser cinco vezes menor que a dos Países Baixos. Zapatero respondeu com números comprovando que o crescimento do preço dos aluguéis foi menor em seu governo do que nas legislaturas anteriores e defendeu seu programa de aluguel jovem - subsídio dado ao governo para que os menores de 35 anos deixem a casa dos pais.
Quando o assunto foi meio ambiente, Rajoy criticou que o governo atual use apenas 6% de energia renovável. Na discussão sobre cultura, o tom ficou mais quente e ouve bate-boca entre os candidatos. Zapatero acusou o adversário de desqualificar o grupo de intelectuais e artistas que anunciou seu apoio ao PSOE e Rajoy disse que alguns desses artistas haviam chamados os eleitores de PP de "imbecis".
Mensagem final
Na sua mensagem final, Zapatero lembrou da retirada espanhola do IraqueNeste momento, Zapatero superou Rajoy de longe. Não só pela melhor retórica, mas pelo conteúdo de seu discurso. Enquanto o candidato do PP leu um texto até certo ponto brega, baseado nas idéias de família, tradição e propriedade, Zapatero enunciou as conquistas de seu governo e o papel da Espanha como promotor da paz mundial atráves da ajuda ao desenvolvimento de países pobres e opondo-se a guerras como a do Iraque, qualificada pelo candidato de "ilegal".
domingo, 24 de fevereiro de 2008
A vez de Rajoy
Foto publicada na capa do El País de Rajoy com a esposaNum link postado no domingo passado eu contei que a capa do El País era a matéria de uma semana com Zapatero. Hoje foi a vez de o jornal publicar uma matéria de uma semana com o Rajoy. Minha impressão foi que a tendência pró-Zapatero do jornal não ficou muito explícita. O mais interessante da matéria de hoje foram algumas revelações. Por exemplo, o nome do colégio em León onde os dois candidatos estudaram quando crianças. Foi o colégio das Discípulas de Jesus. O pai de Zapatero era decano do Colégio de Advogados da cidade e o de Rajoy, juiz de primeira instância.
Outra informação nova para mim é que a má relação entre o Grupo Prisa - dono do El País e da rádio Cadena Ser - vem de longe. Em 1996, o então recém-instalado governo de José María Aznar tentou impedir uma parceria entre o Grupo Prisa e a Telefónica, que tem participação estatal. O objetivo do governo era frear a expansão do conglomerado dirigido pelo empresário Jesús Polanco - falecido no ano passado - rumo ao mercado de televisão digital. Para tal, chegou a promover uma lei que sujeitava as operações de TV digital a uma autorização do governo. Com base nessa lei, Polanco foi processado criminalmente por um juiz. Além de ser absolvido, o empresário teve a satisfação de ver o magistrado acusado de prevaricação.
Em março do ano passado, a relação entre o partido e o grupo empresarial voltou a estremecer. Após declarações de Jesús de Polanco contra o PP, o partido promoveu um boicote às empresas do grupo. A versão do El País para a história está aqui.
A entrevista de hoje no El País termina com este espinhoso assunto:
O jornalista interpela Mariano Rajoy sobre o boicote que o PP decretou aos veículos do Grupo Prisa (...). É o momento mais tensa dessa conversa à mesa. O candidato do PP (...) afirma que respeita a imprensa de tendência - na sua opinião, é evidente que El País é um jornal de centro-esquerda que apóia o PSOE (...). Sustenta que nunca chegou a ter certeza de que a operação política, midiática e judicial que tentou levar à prisão Jesús de Polanco e o conselheiro delegado Juan Luis Cebrián (atual manda-chuva do Grupo Prisa) e arruinar o Grupo Prisa fôra tramada no governo de Aznar. 'No velório de Jesús de Polanco eu disse ao seu filho que queríamos ter relações normais com Prisa e, de fato, normalizamos as relações'.
E amanhã tem o primero debate entre Zapatero e Rajoy.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Questão de interpretação
Na foto Pizarro e Solbes, os 'números 2' das duas campanhasFoi realizado ontem o primeiro debate na televisão entre os "números 2" dos principais partidos: Pedro Solbes, atual ministro da Economia e Fazenda, pelo PSOE; e Manuel Pizarro, presidente da companhia elétrica Endesa, pelo PP. Foi uma avant-première para o grande debate entre Zapatero e Rajoy, na próxima terça-feira.
A avaliação do debate por parte dos jornais espanhóis revela muito de suas posições eleitorais.
El Pais - "Solbes se impõe a Pizarro no arranque da campanha"
Público - "Solbes desarma Pizarro"
ABC - "Pizarro mostra os graves problemas da economia contra um Solbes na defensiva"
La Razón - "Pizarro ganha o primeiro debate"
O único que ficou em cima do muro foi El Mundo: "Pizarro promete menos impostos e Solbes mais proteção social"
A matéria do El Pais é a única fundamentada numa pesquisa de opinião. Segundo o jornal, a maioria dos entrevistados acha que Solbes "venceu" o debate.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Pauta pululando
Na foto ao lado, o jovem RajoyDei uma olhada rápida no Google e não achei essa matéria em nenhum lugar, mas tem uma pauta que tá pululando nessas eleições. Você sabia que Rajoy e Zapatero estudaram no mesmo colégio, em León? O candidato do PP é cinco anos mais velho, mas seu irmão chegou a freqüentar a mesma série de Zapatero.
Ao contrário do candidato socialista, Rajoy não nasceu em León (na comunidade de Castela e Leão) e sim em Santiago de Compostela (Galícia). Apesar de ter vivido a maior parte de sua infância em Pontevedra, o jovem Mariano andou pelas bandas de León porque seu pai era juiz e por isso se mudaram algumas vezes. O pai de Rajoy chegou a conhecer o pai de Zapatero, que era advogado na cidade.

Daria uma baita matéria se um repórter fosse a León e descobrisse esse colégio. Aposto que ainda teria uma professorinha aposentada ou um velho diretor que dirá lembrar-se dos dois e ainda terá alguma história pra contar.
Nas últimas eleições o PSOE teve ligeira vantagem em León: três cadeiras contra duas do PP. E agora, como estará?
Na charge ao lado, o jovem Zapatero, numa outra visão. A fracassada negociação com a ETA foi realmente o calcanhar-de-Aquiles da última legislatura socialista...
Começou!
A campanha eleitoral começa oficialmente hoje à meia-noite (20h de Brasília), a apenas 20 dias da votação. Bem diferente do Brasil, onde a campanha costuma ter início uns dois meses antes do pleito. Apesar da proximidade do "9-M", o clima na rua ainda não é de eleição, pelo menos não o que eu imagino como "clima de eleição". Não existem galhardetes nos postes, adesivos nos carros, gente distribuindo santinho. Apenas cartazes dos dois candidatos a presidente de governo. E é claro, a cobertura mais ampla da imprensa. El País, por exemplo, finalmente inaugurou seu caderno de eleições.
Aqui na Espanha, onde o voto não é obrigatório, o grande desafio é convencer o cidadão a trocar seu domingo de lazer por uma visita à seção eleitoral mais próxima. A tarefa é tão complicada que o PSOE fez um vídeo chamando as pessoas para votar, nem que seja no PP. Algo inimaginável no Brasil. Está no El País.
Tuteando
Se nas ruas a campanha espanhola é bem diferente da brasileira, na imprensa não difere muito. Todo dia tem acusações de um candidato contra outro. Ontem mesmo Rajoy disse que Zapatero era culpado pelos protestos de estudantes contra duas candidatas a deputada do PP, que tiveram de sair às pressas das universidades onde tinham compromissos eleitorais.
Já Zapatero disse que o candidato opositor não teve pulso nem para controlar a presidenta da comunidade de Madri, Esperanza Aguirre, que armou um qüiproquó até conseguir deixar o prefeito da capital, Alberto Ruíz-Gallardón, de fora da lista do PP. "Se não teve firmeza com Aguirre, como a terá para dirigir um país?", perguntou-se Zapatero num comício.
Para mostrar como os ânimos andam exaltados entre os dois candidatos, El País usa um exemplo muito particular da língua espanhola. Assim como no Brasil os políticos costumam chamar-se de "vossa excelência" quando estão na tribuna, na Espanha é de bom tom que eles se chamem de "usted", o pronome de tratamento mais formal - equivalente em português à nossa expressão "o senhor".
Pois El País se mostrou indignado na edição de hoje de como Rajoy se referiu a Zapatero como "tu" e estampou na manchete: "Rajoy perde o respeito por Zapatero".
"Estou aqui me divertindo, porque estou contando aos espanhóis o que vou fazer nos próximos quatro anos, coisa que tu não fazes, tu só pedes o voto para que o PP não ganhe", disse Rajoy.
Pois não é que o pessoal da campanha do Zapatero trabalhou super rápido? Hoje mesmo soltou para a imprensa o tal vídeo, que eu comentei acima, no qual pede que os espanhóis votem, nem que seja no PP. Tacada de mestre dos marqueteiros do PSOE.
Aqui na Espanha, onde o voto não é obrigatório, o grande desafio é convencer o cidadão a trocar seu domingo de lazer por uma visita à seção eleitoral mais próxima. A tarefa é tão complicada que o PSOE fez um vídeo chamando as pessoas para votar, nem que seja no PP. Algo inimaginável no Brasil. Está no El País.
Tuteando
Se nas ruas a campanha espanhola é bem diferente da brasileira, na imprensa não difere muito. Todo dia tem acusações de um candidato contra outro. Ontem mesmo Rajoy disse que Zapatero era culpado pelos protestos de estudantes contra duas candidatas a deputada do PP, que tiveram de sair às pressas das universidades onde tinham compromissos eleitorais.
Já Zapatero disse que o candidato opositor não teve pulso nem para controlar a presidenta da comunidade de Madri, Esperanza Aguirre, que armou um qüiproquó até conseguir deixar o prefeito da capital, Alberto Ruíz-Gallardón, de fora da lista do PP. "Se não teve firmeza com Aguirre, como a terá para dirigir um país?", perguntou-se Zapatero num comício.
Para mostrar como os ânimos andam exaltados entre os dois candidatos, El País usa um exemplo muito particular da língua espanhola. Assim como no Brasil os políticos costumam chamar-se de "vossa excelência" quando estão na tribuna, na Espanha é de bom tom que eles se chamem de "usted", o pronome de tratamento mais formal - equivalente em português à nossa expressão "o senhor".
Pois El País se mostrou indignado na edição de hoje de como Rajoy se referiu a Zapatero como "tu" e estampou na manchete: "Rajoy perde o respeito por Zapatero".
"Estou aqui me divertindo, porque estou contando aos espanhóis o que vou fazer nos próximos quatro anos, coisa que tu não fazes, tu só pedes o voto para que o PP não ganhe", disse Rajoy.
Pois não é que o pessoal da campanha do Zapatero trabalhou super rápido? Hoje mesmo soltou para a imprensa o tal vídeo, que eu comentei acima, no qual pede que os espanhóis votem, nem que seja no PP. Tacada de mestre dos marqueteiros do PSOE.
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