segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

O primeiro cara-a-cara entre os candidatos




O formato


Terminou agora há pouco o primeiro debate na televisão entre os candidatos Mariano Rajoy, do PP, e José Luis Rodríguez Zapatero, do PSOE. O formato é bem diferente dos debates a que estamos acostumados a ver na TV Globo. Era um cara-a-cara entre os dois candidatos com um mediador que intervinha muito pouco. Houve uma mensagem de apresentação de cada candidato, quatro blocos com assuntos específicos, um bloco livre e uma mensagem final. Por sorteio, Rajoy abria os blocos e Zapatero encerrava, o que lhe conferiu uma certa vantagem. Na próxima segunda-feira será ao contrário.

Apesar do formato "quadrado", com planos e contra-planos fechados nos rostos dos candidatos, a minha modesta opinião é de que o debate foi muito mais interessante do que no Brasil - ajudado pelo fato de haver apenas dois candidatos, o que nas eleições brasileiras só é possível no segundo turno.

Os candidatos tinham mais liberdade do que nos debates no Brasil e houve momentos em que um interrompia o outro, dando a impressão de que realmente se tratava de um "debate". O mediador interrompia apenas quando já se tornava impossível ouvir o que o candidato da vez estava expondo e não havia aquele irritante reloginho no canto da tela marcando o tempo de cada candidato, o que faz o debate parecer uma partida de futebol.

Impressão geral

Na minha modesta opinião, Zapatero se saiu melhor. Certamente ele tem retórica mais forte do que Rajoy. Na mensagem final, isso ficou claro. O candidato socialista falou olhando para a câmera, como se estivesse conversando com o espectador. Quase não se notava que ele de vez em quando abaixava os olhos para ler o texto. Rajoy, ao contrário, perdeu alguns segundos - mais de um minuto talvez - tentando encontrar a câmera. Tinha o olhar perdido, baixava os olhos freqüentemente para ler o texto e às vezes parecia estar procurando alguém por trás das câmeras.

Apesar disso, em muitos momentos Rajoy conseguiu complicar Zapatero durante as discussões. Minha opinião é que o candidato do PSOE teve melhor desempenho. Vamos ver o que dirá a imprensa escrita amanhã, apesar de que eu já posso adivinhar: El País e o Público dirão que Zapatero deu um show e o ABC e La Razón exaltarão o desempenho de Rajoy. El Mundo dirá, nas entrelinhas, que o candidato do PP se saiu melhor. A conferir.

Estúdio onde foi realizado o debate: "quadradão"

Estes foram os principais pontos do debate:

Economia e emprego


A discussão sobre economia foi uma guerra de números. Zapatero apresentou dados de como a Espanha cresceu nos últimos quatro anos e sobre a tendência de crescimento para 2008, enquanto Rajoy afirmou categoricamente que há uma crise na economia do país. Crise esta que Zapatero chegou a admitir, culpando a recessão mundial. No entanto, bateu na tecla de que na última legislatura foram criados três milhões de empregos. Rajoy quis dar a impressão de estar falando para o trabalhador espanhol médio, criticou a postura do adversário de citar dados macroeconômicos e destacou o aumento no preço dos alimentos. Eu diria que houve empate neste bloco.

Política social


Rajoy tentou centrar o bloco na discussão sobre a imigração. Citou dados impressionantes: em 2007 a Espanha recebeu mais de 700 mil estrangeiros, número superior a França, Alemanha e Reino Unido somados. Foi o segundo país do mundo que mais recebeu imigrantes, perdendo apenas para os Estados Unidos. Falou em "avalanche" de estrangeiros e defendeu a idéia de exigir dos imigrantes a assinatura de um contrato no qual se comprometeriam a tentar integrar-se à sociedade espanhola.

Neste bloco Zapatero adotou uma estratégia inteligente. De início, fugiu do assunto da imigração. Enquanto Rajoy dizia que os espanhóis estão perdendo vagas nas escolas e hospitais para estrangeiros e tentava associar imigração a delinqüência - com dados como o de que 34% da população carcerária da Espanha hoje é estrangeira -, Zapatero se centrava em apresentar as conquistas sociais do seu mandato. Só nas suas últimas intervenções o candidato socialista respondeu às questões sobre imigração: lembrou dos acordos entre sindicatos e patrões para a legalização de 700 mil imigrantes ilegais, destacou o aumento da ajuda para desenvolvimento dos países mais pobres e por fim criticou o contrato de integração de Rajoy. Disse que ele transforma os estrangeiros em "delinqüentes em potencial".

Quando Rajoy desistiu de falar de imigração para apresentar sua política social, já não havia mais tempo. Ponto para Zapatero.

Política exterior e de segurança

Como era de se esperar, a discussão deste bloco girou em torno da ETA. De política exterior mesmo quase não se falou. Rajoy insistiu no fracasso da negociação do governo do PSOE com o grupo radical basco, enquanto Zapatero criticava a resposta da administração do PP - que governou de 1996 a 2004 - aos atentados de 11 de março de 2004 em Madri.

Rajoy lembrou, em tom de acusação, que Zapatero foi o primeiro presidente de governo espanhol que teve a "imprudência" de negociar com um "grupo terrorista" e mostrou declarações contraditórias de Zapatero em relação à questão basca. Acusou o atual presidente de governo de incentivar os nacionalistas bascos, negociando com a ETA e seu braço político, o Batasuna, e reconhecendo no início de seu mandato partidos como a Aliança Nacional Basca (ANV) e o Partido Comunista das Terras Bascas (PCTV), que este ano, às vésperas da eleição, foram ilegalizados pelo governo. "A ilegalização foi um ato de oportunismo político", afirmou Rajoy, acusando Zapatero também de ter "ressuscitado" a ETA, que em 2004 estava inativa há mais de um ano.

O candidato socialista retrucou com inteligência. "Mas não foram vocês do PP que disseram que a ETA foi a responsável pelo 11 de Março? Como então eles estavam mortos na época?", perguntou Zapatero, remetendo às últimas eleições, quando o governo de José María Aznar tentou convencer a opinião pública de que a ETA havia sido responsável pelos atentados e não os terroristas islâmicos.

No assunto "segurança" Zapatero ainda desqualificou as críticas de Rajoy à sua negociação com a ETA lembrando que no governo de Aznar o terrorismo fez 238 vítimas na Espanha - 46 assinados pela ETA e 192 no 11 de Março - enquanto nos últimos quatro anos morreram quatro pessoas vítimas do terror, todas no atentado ao aeroporto de Madri, em 2006.

Atentado no terminal 4 do aeroporto de Madri: ETA dominou o debate no bloco de política exterior e segurança

O pouco que se falou de política exterior foi o momento em que Zapatero mais se sentiu à vontade, até porque este assunto é um grande trunfo do governo do PSOE, que assumiu interrompendo o impopular apoio espanhol aos Estados Unidos na Guerra do Iraque.

Política institucional

O assunto que dominou este bloco foi a complicada discussão sobre os estatutos das comunidades autônomas na Espanha. Desde o fim da ditadura de Franco, no final dos anos de 1970, a Espanha discute como deve ser seu modelo de Estado. Nos últimos quatro anos, várias destas comunidades - o equivalente aos estados no Brasil - reformaram seus estatutos de autonomia. A do País Basco foi rechaçada por PSOE e PP. Outras foram aprovadas por ambos os partidos. Mas o grande dilema foi o Estatuto da Catalunha, que sofreu um grande número de contestações no Tribunal Constitucional.

Rajoy acusou o PSOE de fomentar a discórdia nacional com o apoio ao estatuto catalão e citou declarações de espanhóis influentes afirmando que o Estado está se fragmentando. Zapatero respondeu insinuando que o PP está promovendo uma perseguição à Catalunha, comunidade onde a popularidade do partido é baixa. No fundo, o pomo da discórdia entre as comunidades é o uso da água, recurso raro na Espanha, principalmente na costa mediterrânea. As comunidades que possuem as maiores reservas tentam limitar a cessão às regiões vizinhas e, se possível, registrar esses limites em seus estatutos.

Último bloco

Na hora de falar sobre temas livres, Rajoy teve seu melhor desempenho. Começou atacando a política de habitação do governo do PSOE, que criou um ministério para o assunto, mas - segundo o candidato do PP - pouco fez para melhorar o acesso dos espanhóis à habitação. Rajoy começou lembrando que na Espanha os aluguéis são mais caros que na Holanda, apesar de a densidade demográfica espanhola ser cinco vezes menor que a dos Países Baixos. Zapatero respondeu com números comprovando que o crescimento do preço dos aluguéis foi menor em seu governo do que nas legislaturas anteriores e defendeu seu programa de aluguel jovem - subsídio dado ao governo para que os menores de 35 anos deixem a casa dos pais.

Quando o assunto foi meio ambiente, Rajoy criticou que o governo atual use apenas 6% de energia renovável. Na discussão sobre cultura, o tom ficou mais quente e ouve bate-boca entre os candidatos. Zapatero acusou o adversário de desqualificar o grupo de intelectuais e artistas que anunciou seu apoio ao PSOE e Rajoy disse que alguns desses artistas haviam chamados os eleitores de PP de "imbecis".

Mensagem final

Na sua mensagem final, Zapatero lembrou da retirada espanhola do Iraque

Neste momento, Zapatero superou Rajoy de longe. Não só pela melhor retórica, mas pelo conteúdo de seu discurso. Enquanto o candidato do PP leu um texto até certo ponto brega, baseado nas idéias de família, tradição e propriedade, Zapatero enunciou as conquistas de seu governo e o papel da Espanha como promotor da paz mundial atráves da ajuda ao desenvolvimento de países pobres e opondo-se a guerras como a do Iraque, qualificada pelo candidato de "ilegal".

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